Paul Trevor

Paul Trevor

Esse é o tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimo, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

Carlos Drummond de Andrade - A rosa do povo
Paul Trevor - Liverpool (1975)

Paul Trevor - Liverpool (1975)

Humphrey Spender

Humphrey Spender

Guess I should have caught your call
But I just had to waste the phone forget it all
Bones are trembling hands are cold
You don’t know how it feels you’ve got me up against the wall

Maybe we could make this work
But now you start to leave before it’s getting worse
I don’t know what you came here for
It’s almost that I wish we hadn’t met at all

You slap just like a wake-up call
The bruises on the face don’t bother me at all
Bones are trembling hands are cold
It’s almost that I wish you had me up against the wall

Peter Bjorn and John- Up against the wall
“Se hoje em dia eu o encontro por acaso, raramente, ele fala de outro modo. Eu nem saberia dizer o que ele tem na cabeça. Bocetas, ele diz, o cérebro dele está cheio de bocetas, não há nada mais nele. Fala dessa maneira, não apenas a dois, mas também em público; tem prazer em usar palavras como a mencionada boceta ou caralho, foda e corrimento. Ele as solta com gosto, pois hoje em dia não existe (não há) escândalo - choque também existe somente por etiqueta, cansaço ou educação, talvez por amor -, não existe um outro mundo, uma outra margem de onde isso tudo possa ser visto, onde esperanças poderiam ser lapidadas, de onde a resistência poderia ser nomeada, oposição de onde o desrespeito poderia ser designado, não há, não existe, por isso tudo é sofrido, ligeiramente incômodo, insolentemente desagradável.”
Péter Esterházy - Uma mulher

O SOBREVIVENTE

Impossível compor um poema a essa altura da evolução da
[humanidade.
Impossível escrever um poema - uma linha que seja - de
[verdadeira poesia.
O último trovador morreu em 1914.
Tinha um nome de que ninguém se lembra mais.

Há máquinas terrivelmente complicadas para as
[necessidades mais simples.
Se quer fumar um charuto aperte um botão.
Paletós abotoam-se por eletricidade.
Amor se faz pelo sem-fio.
Não precisa estômago para digestão.

Um sábio declarou para a O Jornal que ainda
falta muito para atingirmos um nível razoável
de cultura. Mas até lá, felizmente,
estarei morto.

Os homens não melhoraram
e matam-se como percevejos.
Os percevejos heroicos renascem.
Inabitável. o mundo é cada vez mais habitado.
E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo
[dilúvio.

(Desconfio que escrevi um poema.)

Carlos Drummond Andrade - Alguma poesia

(Source: a-f-r-a-i-d)

“I want adventure. I want romance.”
“Ned, there is no such thing as adventure. There’s no such thing as romance. There’s only trouble and desire.”
“Trouble and desire.”
“That’s right. And the funny thing is, when you desire something you immediately get into trouble. And when you’re in trouble you don’t desire anything at all.”
“I see.”
“It’s impossible.”
“It’s ironic.”
“It’s a fucking tragedy is what it is, Ned.”
Hal Hartley - Simple Men

(Source: )

“Never will I know what you saw in me,
Surely knew exactly what I saw in you.
Thinking back now,
I’m sure that was the only attraction”
Texbook love - Fleet Foxes
“Há uma mulher. Eu a odeio, é isso. Ela me odeia. Abril, é como ela me chama. Há alguns anos ela me convenceu, sejamos, como se costuma dizer, vegetarianos. Eu, na realidade, entendi tudo errado, porque ela na verdade pensava que ficaríamos muito bem sem as “exigências deploráveis dos nossos corpos”, porque nos curvamos sobre as nossas virilhas, como se fôssemos obrigados, como se alguém nos ordenasse - imperativo insistente -, talvez seja surpreendente, se vê surpreendida pelo agora, agora, a-gora, não, não pare, ao contrário, não é por isso que ela está dizendo, bem, na verdade está dizendo agora porque agora, quando seu corpo está a caminho de alcançar o climax ela não faria nesse momento observações depreciativas, como declive e não penhasco, ou coisa parecida, agora lhe ocorreu, e em outra hora seria difícil, o que seria se tivesse de parar no meio e fosse obrigada a constatar que não aconteceria nada, nada, na-da, de concreto, não morreria se agora, agora, a-gora, quando nos esfregamos um em cima do outro e dentro do outro bem promissoramente, se agora tivesse de parar ela sentiria que de fato iria morrer, pois na verdade o que acontece, acontece a não ser porque não pode acontecer diferente, pois assim o que afinal acontece, acontece por acaso, é ridículo, é engraçado, ou se parece mais com um desenho animado, sem dimensão de certa forma como se apenas imaginássemos tudo o que existe, ou seja, que agora, agora, a-gora, não, nossos corações não estão mais juntos. Ante a palavra coração, como por um passe de mágica, meu pau murchou - meu pinto, oh, Próspero! -, desanimado eu o tirei, e carinhoso peguei na mão seu corpo quente, vermelho, ofegante, bem, disse então a mulher, e na realidade ela não morreu, sejamos vegetarianos, e eu, também ainda entre os vivos, libertado, lhe dei razão, pois jé me preparava para um dia experimentar como seria viver sem carne, dizem muitas coisas, isto e aquilo, há quem teve urticária, outros ficaram com pelo cinzenta, o equilíbrio neles se desestabilizou, enquanto outros falavam de alívio, limpeza e brilho, ou sobre a necessidade do afastamento do veneno acumulado burocraticamente no corpo ao longo do tempo, ou mesmo do seu rejuvenescimento. Arrastei toda espécie de livros para a cama, de receitas e guias de restaurantes. Eu a surpreendi, enquanto folhava os livros fervorosamente estendia diante dela as possibilidade, as nossas possibilidades, esse novo mundo que exatamente agora, agora se abria diante de nós, exibia sua riqueza, olhando para mim ela me admirava sem disfarces, admirava o meu pau que a contemplava vermelho. Eu me sentia como Misi Nyilas com tio Pósalaky, decidindo se deveria ler ou pular. Isso aconteceu há quinze anos. Mas pode ser que seja há nove. Desde então uma bagunça. Período de transição, ela ri, vamos pôr as coisas em pratos limpos, período de transição, Abril, e me atira na cama.”
Péter Esterházy - Uma mulher